22 setembro 2010

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  Ontem terminei a segunda leitura de "Os Lusíadas", de Camões, que foi republicada recentemente pela Abril Coleções.Já havia lido a obra há mais ou menos 23 anos atrás, na época de vestibular, o que me pareceu, na época, uma tarefa penosa, pois as infinitas referências do livro tornavam, pelo menos para este que vos escreve, uma compreensão difícil e, por vezes, impossível.

  Porém, desta vez, foi de leitura fluente e sem pressa, me dando ao luxo de degustar cada passagem, cada aventura vivida tanto por Vasco da Gama, quanto pelas histórias que ele conta à respeito da Coroa Portuguesa. A morte de Inês de Castro é de uma dramaticidade impressionante, e não a toa, Camões foi o maior escritor portugues de todos os tempos.  A história de Adamastor, revelada quando cruzam o Cabo das Tormentas, tambem é genial.

  A invasão da Etiópia, a chegada a Calicute, as tempestades enviadas por Netuno ou Baco, a volta no Cabo da Boa Esperança, a descrição da Ilha da Madeira, ou das obras de arte dos indianos, são realmente descrições raras no sentido de despertarem a imaginação, do leitor conseguir visualizar com clareza a imagem que o autor quer que seja visualizada. A agonia das embarcações, e dentro delas, a expectativa do desembarque numa terra desconhecida, nos mostram o quanto estes homens foram valentes, fortes e destemidos, mesmo que cegos por uma religiosidade exacerbada, ou de um patriotismo que hoje nos parece loucura, cumpriram as mais absurdas jornadas, enfrentando doenças desconhecidas, selvagens e toda a sorte de intempéries e tragédias. Adorei reler este épico.

 Aliás, esta coleção da Abril tem me proporcionado muitos momentos de prazer, descubro hoje que a obrigação de ler, seja por imposição da escola, ou mesmo por necessidade de um vestibular, tiram muito da magia que somente uma leitura contemplativa, calma, sem pressa, raciocinando e parando para imaginar as cenas descritas, pode proporcionar. Li quase 20 livros nos ultimos 5 meses, alguns já havia lido em determinadas alturas da minha vida. Mas, mesmo os repetidos, me trouxeram o prazer da compreensão plena da mensagem, coisa que hoje considero impossível de uma pessoa mediana conseguir, antes dos 35 ou 40 anos de idade. Porque a própria experiencia de vida nos aproxima destes geniais personagens, suas peripécias sempre nos remetem a momentos vividos ou sabidos, e isso não temos como referenciar nos primeiros anos da nossa adolescencia, geralmente quando estas leituras nos são exigidas. Dou um exemplo : li pela primeira vez " O Primo Basílio " de Eça de Queiróz, com 15, talvez 16 anos, e o reli a 3 semanas atrás.

 Na primeira vez, eu não consegui mesmo distinguir a ironia do texto, a forte tensão sexual existente nas ações, e acabei por achar um romance bobo, aonde os protagonistas morrem no final. Porém, nesta releitura, consegui distinguir claramente às críticas, as insinuações, a ideologia no texto, percebi muito melhor as motivações dos personagens, e isso me fez reavaliar bastante esta obra genial.

  Nesta coleção, seleta e representativa da fina nata da literatura mundial, já reli Crime e Castigo, de Dostoiewsky, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o Inferno de Dante, enfim, Cervantes, Goethe, Jane Austen com seu Orgulho e Preconceito, Moby Dick, e tantos outros. Hoje, começo a leitura de A Metamorfose, de Franz Kafka, livro que começei a ler duas vez na adolescência e que não consegui compreender lhufas, mesmo eu não sendo o mais néscio dos homens.

  Se sobreviver a Kafka, poderei me redimir junto ao sentimento de impotência que tive com 17 anos.
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